A Receita Federal publicou nos primeiros dias de fevereiro de 2026 a sua Política de Inteligência Artificial (Portaria RFB nº 647) e, logo em seguida, lançou um chatbot com IA generativa para tirar dúvidas sobre a Reforma Tributária. Para escritórios contábeis, isso não é apenas notícia: é um divisor de águas prático na forma como o Fisco usa tecnologia e como você deve posicionar seus processos.
Por que isso importa agora
Publicada em 5 de fevereiro e divulgada oficialmente pelo órgão em 12 de fevereiro de 2026, a Política de IA da Receita define princípios e salvaguardas para o uso de sistemas de IA no órgão — com ênfase em responsabilidade, transparência e supervisão humana. Ao mesmo tempo, a Receita liberou o BotRTC, um assistente público treinado para responder dúvidas sobre a Reforma Tributária.
O que muda na prática: a autoridade fiscal passa a adotar IA de forma estruturada, mas deixa claro que a decisão final é sempre humana e que os sistemas devem ser auditáveis e responsáveis. Para quem presta serviços contábeis, isso cria novas obrigações e oportunidades de interação com o Fisco.
O que está mudando no mundo real
Diretrizes-chave da Portaria que impactam escritórios:
- Supervisão humana obrigatória — sistemas podem apoiar análises e triagens, mas não podem substituir a competência decisória do servidor público.
- Proteção de dados e sigilo fiscal — tratamento rigoroso de dados pessoais e sigilosos; cuidado redobrado em integrações e compartilhamento.
- Transparência e auditabilidade — a Receita exige mecanismos que permitam entender por que um sistema tomou uma determinada recomendação.
- Uso público de IA (BotRTC) — assistentes para esclarecimento de dúvidas estarão disponíveis, mas com limitações (não substituem orientação técnica individualizada).
Como escritórios podem reagir — roadmap prático
A seguir, um roteiro direto para transformar a obrigação em vantagem competitiva.
- Mapear o seu uso de IA: identifique ferramentas internas e de fornecedores que já usam modelos (GPTs, ferramentas de automação fiscal, OCR inteligente). Faça inventário de onde há dados sensíveis.
- Reforçar governança e papéis: defina quem aprova automações que manipulam dados fiscais, quem valida saídas automatizadas e quem responde por decisões finais. A Receita deixou claro: a responsabilidade humana permanece.
- Logs, evidências e auditabilidade: implemente registros imutáveis para todas as interações automatizadas (input, output, versão do modelo, autorizações). Isso facilita defesa técnica e auditoria — e será exigido por órgãos que adotam IA auditável.
- Revisar contratos com fornecedores: solicite cláusulas sobre tratamento de dados, transparência de modelos, SLA para correções e acesso a telemetria quando necessário para auditoria.
- Política de mínimo contexto: não alimente modelos com mais dados do que o necessário. Adote segmentação por cliente e criptografia de pontos sensíveis antes de enviar texto ou documentos para serviços de terceiros.
- Treinar equipes: capacite analistas para interpretar saídas de IA, identificar vieses e entender limites do BotRTC — que é uma fonte útil para consultas gerais, mas não substitui parecer técnico ou análise de casos.
- Comunicar clientes: explique o que mudou e como o escritório vai lidar com consultas ao Fisco e com suporte automatizado. Transparência reduz ruído e evita surpresas em fiscalizações.
O lado humano: riscos e oportunidades
Risco: automações mal governadas podem expor dados sensíveis, gerar respostas equivocadas ou empurrar decisões que deveriam ser humanas.
Oportunidade: escritórios que incorporarem controles e evidências ao uso de IA ganham eficiência e confiança — podem oferecer serviços de revisão pré‑fiscal, monitoramento de conformidade contínuo e defesa técnica embasada em trilhas auditáveis.
Como usar o BotRTC sem depender apenas dele
O assistente da Receita é uma ferramenta valiosa para esclarecer dúvidas gerais sobre a Reforma Tributária. Mas lembre: o BotRTC não fornece orientações sobre casos concretos e pode falhar em respostas complexas. Use‑o para triagem inicial e pesquisa rápida; mantenha a revisão humana para pareceres, cálculos e arquivos oficiais.
O que isso revela sobre o que vem a seguir
A publicação da política da Receita indica duas tendências estáveis: primeiro, que o Fisco continuará integrando IA para triagem e fiscalização com controles formais; segundo, que a exigência de auditabilidade e supervisão humana se tornará padrão nas interações entre órgãos públicos e prestadores de serviço. Isso eleva o patamar de governança que escritórios contábeis precisam adotar para operar com segurança.
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Fontes
- Receita Federal – Política de Inteligência Artificial (Portaria RFB nº 647) – 12/02/2026
- Receita Federal – Lançamento do BotRTC – 06/02/2026
- Frente IA – Comentário sobre a publicação da Política de IA da Receita – 12/02/2026
- Nota Gateway – Receita disponibiliza chatbot com IA para esclarecer dúvidas (06/02/2026)